Um pastel cheio de dedos
Antes de chegar a Jardel, parei para comer um pastel
do qual, quando mordi, saíram pernas bonitas
de garotas fritas, mais um caroço de azeitona que comi também
sem pensar que loucura
um pastel erótico sentimental com cerveja que espremia
não só as pernas como também braços e cabelos no balcão do bar
eu não sabia se pedia um pano um balaio
comecei a ficar encabulado de tantas de uma só mordida
não sabia se botava no bolso ou se distribuía na rua
deus do céu que situação penosa
corpos em quantidade escorrendo do recheio de queijo
pela comissura dos lábios,
e eu, em terra estranha, tendo de parecer que era apenas
um idiota se babando com pastel fresco.
*
Mulheres de milho
Milhares de mulheres de milho
brotam do meu olho calado como espigas
fortes. No ar elas se endireitam
como folhudas criaturas carnosas
que ao vento se transmudam, de fêmeas,
em formosos penachos machos.
Acho graça na cruza; penso nisso
que é ser mulher a passo
de, sob a vertigem solar, virar confusa
hibridação. Abro-me. Brinco
de me dar. Rapto-me e opto-me
como se eu mesmo fosse me comer inteiro
enquanto as coisas simplesmente nascem.
*
Metafísica e biscoito
no meio dos latidos da noite
quando o silêncio atinge a qualidade
dos latidos da morte e as folhas caem
impressionavelmente sangradas;
no meio frio de um colchão inquieto
com os olhos pensativos resvalando no teto
e as mãos descendo pelo corpo
como a buscar sua realidade longínqua
quando os morcegos da melancolia
atravessam sem bater entre as árvores
e alguma coisa enraizada confusa
parece brotar de novo entre as pernas;
nesse espaço fundamental reduzido
onde as idéias se sucedem largadas
numa associação intempestiva
que é impossível deter ou compreender;
no cerco sem limite de um quarto
que roda em vários mundos e alterna
com a sensação de não haver nada disso
que dá contorno e forma à própria insônia —
— o homem dá um salto e se puxa
para fora do pântano
e devora um biscoito
e bebe um copo d'água e acende
um cigarro e mais outro.
(Daqui)
Pra me ouvir: Aqui
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