segunda-feira, 3 de junho de 2013

e do meu apetite pelo perdido sem remédio

Fundar uma família. Creio que me teria sido mais fácil fundar um império.

A ilusão cria e sustém o mundo; não a destruimos sem o destruir. É o que faço todos os dias. Operação aparentemente ineficaz, pois é preciso recomeçá-la no dia seguinte.

Já me aconteceu declarar que não podia admirar senão um homem desonrado e feliz. Acabo de me aperceber que Epicteto foi mais longe: agonizante e feliz. Porém, é talvez mais fácil exultar na agonia do que na ignomínia.

O que mais me admirou na maior parte dos filósofos de quem me pude aproximar, foi a falta de julgamento. Sempre ao lado. Uma inaptidão notável para a justeza. — A dobra da abstracção vicia o espírito.

Tento combater o interesse que sinto por ela, imagino os seus olhos, as suas faces, o seu nariz, os seus lábios, em plena putrefacção. Nada feito: o indefinível que ela liberta persiste. É em momentos assim que comprendemos porque é que a vida conseguiu vingar, a despeito do Conhecimento.

Uma vez que compreendemos, o melhor seria rebentar nesse instante. O que é compreender? O que verdadeiramente conseguimos apanhar não se deixa exprimir de forma alguma, e não se pode transmitir a ninguém, nem sequer a nós próprios, de jeito que morremos ignorando a natureza exacta do seu próprio segredo.

O verdadeiro escritor escreve sobre os seres, as coisas e os acontecimentos, não escreve sobre a escrita, serve-se de palavras mas não se detém nas palavras, não faz delas o objecto das suas ruminações. Será tudo, excepto um anatomista do Verbo. A dissecação da linguagem é a mania daqueles que, não tendo nada para dizer, confinam-se no dizer.

Você é um reaça? — Se quiserem, mas no sentido em que Deus o é.

A minha paixão pela história deriva da minha queda pelo caduco e do meu apetite pelo perdido sem remédio.


E. M. Cioran, Esboços de vertigem


(Daqui)

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