As pessoas aqui brigam por comida, por talheres, por roupas que somem dos varais depois de dias esquecidas pelos donos. Mas os donos aparecem sempre. E o melhor de tudo no fim das contas é que existem donos, eles se reconhecem e se animam quando os reconhecemos como proprietários d'algo.
Fora a inconstância das minhas idas à cozinha, nada me difere dos outros moradores.
Também sou dona de pratos, talheres e roupas que somem constantemente.
Aquela blusinha branca com lantejoulas na gola e nos braços foi-se há um tempão.
O cômico dessa novela verídica é que os abafadores nunca usam as peças - o que nos faz ter dúvidas singelas sobre essa profissão tão antiga e ao mesmo tempo tão moderna. Afinal, o que se faz com o objecto furtado? Vendem, escondem, jogam fora?
Tenho um quarto modesto dentro de uma casa nada modesta e o divido com um amigo que ás vezes me abraça forte e me faz companhia quando chove. Só quando chove, no entanto.
As nossas famílias (e agora incluo a todos da casa) nos faz muito falta, alguns oferecem ajuda sempre que podem e vice-versa - mas cada um fica com as suas dores.
Mas também há brigas e câmeras e invasões. Há festas e bebidas e drogas.
É difícil ter de conviver com a solidão dos outros.
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