quarta-feira, 5 de junho de 2013

Um relato caloroso de Fabiano Calixto sobre a chegada dos seus quarenta'nos no seu blog. Eis alguns trechos, :

2. Aos 40, as lembranças tornam-se mais maciças, mais difíceis de derreter com café quente & amargo – principalmente em glaciais manhãs de inverno.

4. Começo a pensar seriamente em versos como i have no other life – que aparecem em uns 47% das jurássicas canções que ouço apaixonada & insistentemente.

6. Pode parecer fácil, mas é preciso muita paciência, jeito & azeite.

11. Aos 40 tenho a nítida impressão de que todos nós já explodimos faz tempo, junto com a Challenger, com a seleção de 82, com o coração do Cacaso, & que insistimos, utópicos & regados de conhaque, em juntar os cacos & recomeçar sabe-se lá de onde ou como ou por quê.

21. Aos 40 sinto cada vez mais saudade do meu pai.

30. Em algum lugar em seu romance The Volcano Lover Susan Sontag diz algo como: Então mostre-me os horrores. Não Recuarei. Aos 40, esta é minha declaração de amor preferida.

35. Penso, aos 40, em minha mãe, a velha, divertida & agridoce Velharia (para quem sempre me pergunta a origem do apelido: é por conta de La Pasionaria (Isidora Dolores Ibárruri Gómez), a velhinha espanhola lutadora, forte & lindamente humana – “É melhor morrer em pé que viver de joelhos”). É com ela, Dona Iracema, a Velharia, a quem amo deveras, que quero tomar muitas cervejas em copos de requeijão & ouvir Evaldo Braga, Waldick Soriano, Fernando Mendes, Paulo Sérgio & Odair José enquanto o suicídio do sol abre sua taverna & todas as memórias escapam diretamente para nossa pele. Penso em meu irmão, Xuru, & o quanto ainda temos por conversar, ouvir rock barulhento, nos abraçar & jogar campeonatos de futebol no videogame. Essa é a eternidade que desejo & que quero desfrutar o máximo que puder – ou como diria o querido amigo & poeta Zhô Bertholini, por todos os círculos dos séculos.

37. Aos 40, a brevidade de tudo se torna mais tátil. Tocar o rosto da amada num passeio pelo parque, tomar uma coca-cola bem gelada numa manhã bem quente de verão, jogar uma pelada com amigos, viajar de trem pela América Latina, observar um beija-flor. Tudo é muito fugaz. & é essa fugacidade que, aos 40, aprendemos a sorver calmamente, demoradamente, sem a ansiedade anterior. Num fragmento lindo de Homens em tempos sombrios, que um dia também se exilará da gente como os nossos sopros, Hanna Arendt diz: O que importa, uma vez mais, é o céu, o céu que lá estava antes que existisse o homem e lá estará depois que ele se for, de modo que a melhor coisa que pode fazer o homem é amar aquilo que por um breve tempo é seu. Esse breve tempo, aprendi, é a única possibilidade de eternidade.

*

(Um salve para as partes 35 e 37 que, em conjunto com as citações, me fizeram derreter um cadinho aqui também em conjunção com umas lagriminhas brejeiras, tímidas que teimaram em escapar. Queria eu ter tanto a contar aos 40!, que idade mais linda, ein).

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