Há algo sobre a terra que escape à dúvida, exceto a morte – a única coisa certa sobre este mundo? Seguir vivendo e duvidar de tudo não é um paradoxo dos mais trágicos, já que a dúvida é muito menos intensa, muito mais suportável que o desespero. A mais frequente é a dúvida abstrata, na qual só está implicada uma parte do ser, contrariamente ao desespero, em que a participação é orgânica e total. Comparado ao desespero, ese fenômeno tão estranho e complexo, o ceticismo é caracterizado por um certo diletantismo, por algo de superficial. Por mais que eu duvide de tudo e oponha ao mundo um sorriso de desprezo, seguirei comendo, dormindo tranquilamente, amando. No desespero, cuja profundida só pode ser compreendida se experimentada, esses atos só são possíveis mediante grandes esforços e muito sofrimento [...] A dúvida é uma inquietude ligada aos problemas e às coisas, e procede do caráter insolúvel de toda interrogação. Se os problemas essenciais pudessem ser resolvidos, o cético voltaria ao seu estado normal.
(Nos Cumes do Desespero (1934) - Cioran).
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