sexta-feira, 28 de junho de 2013

Um contorno branco
escreve o visto há algumas semanas
mas esquece do café tomado há duas horas
a feirinha estava cheia de vidas e cores
gritos ----------------------------


''o almoço está pronto''
a voz está pronta, acesa
uma música solta faz vibrar as extremidades da cama
acorda os vizinhos, os cães-guias, os cegos.

Toda a sorte de gente gesticula, sozinha &
parece que soluçam loucura e o oxigênio -
quase um vapor condensado exalando mortes -

além dos dedos

NADA COMPLEMENTA O VAZIO

nessas noites de frio desanuviado.

92



''... que é uma alegre burla lançada à antiga arte da Caça''.

sábado, 8 de junho de 2013

«Nunca ninguém conseguiu livrar-se do Tempo.»
Sei disso. Mas quando o lemos no Mahabharata, sabemos para sempre.

No aborrecimento vulgar, não temos vontade de nada, nem sequer a curiosidade de chorar; no excesso de aborrecimento, é completamente ao contrário, pois este excesso incita à acção, e chorar é uma acção.

Todo projecto é uma forma camuflada de escravatura.

NESTE MOMENTO ESTOU SÓ. QUE POSSO DESEJAR DE MELHOR? NÃO EXISTE FELICIDADE MAIS INTENSA. SIM, A DE SENTIR, À FORÇA DE SILÊNCIO, A MINHA SOLIDÃO CRESCER.

O momento capital do drama histórico está fora do nosso alcance. Não somos senão os anunciadores, as trompetas de um Julgamento sem Juiz. 

A morte é um estado de perfeição, o único ao alcance de um mortal.

A morte, que desonra! Devir subitamente objecto...

Pesadelos falhados, pesadelos que se arrastam e prolongam, à falta de novas catástrofes. Acordar em sobressalto por falta de interesse!

A obsessão do último a propósito de tudo, o último como categoria, como forma constituinte do espírito, como deformidade original, até como revelação...

Toda a concessão que fazemos é acompanhada por uma diminuição interior de que não nos damos conta logo no momento.

A este amigo que me diz que se aborrece porque não pode trabalhar, respondo que o aborrecimento é um estado superior, e é um rebaixamento relacioná-lo com a ideia de trabalho.

No enterro de C. dizia a mim mesmo: «Eis, enfim, alguém que não teve um único inimigo.» — Não que ele tenha sido medíocre, mas ignorava a embriaguez de magoar a um ponto inaudito. 

No Zoo. — Todas estas bestas têm um aspecto decente, excepto os macacos. Sentimos que o homem não anda longe.

E. M. Cioran, Esboços de vertigem

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Esquinas

Não merecemos as injúrias causadas
pelos mesmos maravilhosos cabelos
antes caídos, naturais, hoje velhos
quebradiços de largar o viço dos anos,
das pontas de espuma que se misturam
no chão dos nossos pensamentos.
Jantaremos em pratos dourados quando
não pudermos mais sentir os sabores,
quando nos disserem num só folego choroso:
''não dá mais certo
entre nós há uma porta de vidro invisível
que nos separa''
e a despedida esperada desde o começo
qual um ritual cabalístico onde os números
próximos-primos se encontram, dialogam e
batem a porta marcando a face do antigo afago,
marcando o medo do tão novo descuido de
nos perdermos dentro de nós, dentro
das nossas congestionadas esquinas.
Um relato caloroso de Fabiano Calixto sobre a chegada dos seus quarenta'nos no seu blog. Eis alguns trechos, :

2. Aos 40, as lembranças tornam-se mais maciças, mais difíceis de derreter com café quente & amargo – principalmente em glaciais manhãs de inverno.

4. Começo a pensar seriamente em versos como i have no other life – que aparecem em uns 47% das jurássicas canções que ouço apaixonada & insistentemente.

6. Pode parecer fácil, mas é preciso muita paciência, jeito & azeite.

11. Aos 40 tenho a nítida impressão de que todos nós já explodimos faz tempo, junto com a Challenger, com a seleção de 82, com o coração do Cacaso, & que insistimos, utópicos & regados de conhaque, em juntar os cacos & recomeçar sabe-se lá de onde ou como ou por quê.

21. Aos 40 sinto cada vez mais saudade do meu pai.

30. Em algum lugar em seu romance The Volcano Lover Susan Sontag diz algo como: Então mostre-me os horrores. Não Recuarei. Aos 40, esta é minha declaração de amor preferida.

35. Penso, aos 40, em minha mãe, a velha, divertida & agridoce Velharia (para quem sempre me pergunta a origem do apelido: é por conta de La Pasionaria (Isidora Dolores Ibárruri Gómez), a velhinha espanhola lutadora, forte & lindamente humana – “É melhor morrer em pé que viver de joelhos”). É com ela, Dona Iracema, a Velharia, a quem amo deveras, que quero tomar muitas cervejas em copos de requeijão & ouvir Evaldo Braga, Waldick Soriano, Fernando Mendes, Paulo Sérgio & Odair José enquanto o suicídio do sol abre sua taverna & todas as memórias escapam diretamente para nossa pele. Penso em meu irmão, Xuru, & o quanto ainda temos por conversar, ouvir rock barulhento, nos abraçar & jogar campeonatos de futebol no videogame. Essa é a eternidade que desejo & que quero desfrutar o máximo que puder – ou como diria o querido amigo & poeta Zhô Bertholini, por todos os círculos dos séculos.

37. Aos 40, a brevidade de tudo se torna mais tátil. Tocar o rosto da amada num passeio pelo parque, tomar uma coca-cola bem gelada numa manhã bem quente de verão, jogar uma pelada com amigos, viajar de trem pela América Latina, observar um beija-flor. Tudo é muito fugaz. & é essa fugacidade que, aos 40, aprendemos a sorver calmamente, demoradamente, sem a ansiedade anterior. Num fragmento lindo de Homens em tempos sombrios, que um dia também se exilará da gente como os nossos sopros, Hanna Arendt diz: O que importa, uma vez mais, é o céu, o céu que lá estava antes que existisse o homem e lá estará depois que ele se for, de modo que a melhor coisa que pode fazer o homem é amar aquilo que por um breve tempo é seu. Esse breve tempo, aprendi, é a única possibilidade de eternidade.

*

(Um salve para as partes 35 e 37 que, em conjunto com as citações, me fizeram derreter um cadinho aqui também em conjunção com umas lagriminhas brejeiras, tímidas que teimaram em escapar. Queria eu ter tanto a contar aos 40!, que idade mais linda, ein).

Claude Lévi-Strauss, Tristes trópicos

“Assim como o indivíduo não está sozinho no grupo e cada sociedade não está sozinha entre as outras, o homem não está só no universo. Quando o arco-íris das culturas humanas tiver terminado de se abismar no vazio aberto por nossa fúria; enquanto estivermos aqui e existir um mundo, esse arco tênue que nos liga ao inacessível permanecerá, mostrando o caminho contrário ao de nossa escravidão, e cuja contemplação proporciona ao homem, ainda que este não o percorra, o único favor que ele possa merecer: suspender a marcha, conter o impulso que o obriga a tapar, uma após outra, as rachaduras abertas no muro da necessidade e a concluir a sua obra ao mesmo tempo em que fecha a sua prisão; esse favor que toda sociedade ambiciona, quaisquer que sejam suas crenças, o seu regime político e o seu nível de civilização; no qual ele coloca o seu lazer, o seu prazer, o seu repouso e a sua liberdade; oportunidade, vital para a vida, de se desprender, e que consiste — adeus, selvagens!, adeus, viagens! —, durante os curtos intervalos em que nossa espécie tolera interromper seu labor de colméia, em captar a essência do que ela foi e continua a ser, aquém do pensamento e além da sociedade: na contemplação de um mineral mais bonito do que todas as nossas obras; no perfume, mais precioso do que os nossos livros, aspirado na corola de um lírio; ou no piscar de olhos cheio de paciência, de serenidade e de perdão recíproco, que um entendimento involuntário permite por vezes trocar com um gato.”


ranchocarne


(adão!)

segunda-feira, 3 de junho de 2013

depois de um tempo, adormece.


( :

Preciso voltar a aprender a respirar.

Meus pés nunca me bastam, mas as muletas não são eternas,

logo quebram, cansam, apodrecem sob a chuva. Quando encontro sustensação ela me rouba o espírito, o amor-próprio e logo vai embora porque tudo vai embora e dói

- às vezes -

quando pulsa.

Olhar em volta e ver gelo, São Paulo enquanto iceberg e um edredom quentinho te esperando, alguns sabores de chás, alguns filmes de épocas remotas e atrizes idem

mas falta

e do meu apetite pelo perdido sem remédio

Fundar uma família. Creio que me teria sido mais fácil fundar um império.

A ilusão cria e sustém o mundo; não a destruimos sem o destruir. É o que faço todos os dias. Operação aparentemente ineficaz, pois é preciso recomeçá-la no dia seguinte.

Já me aconteceu declarar que não podia admirar senão um homem desonrado e feliz. Acabo de me aperceber que Epicteto foi mais longe: agonizante e feliz. Porém, é talvez mais fácil exultar na agonia do que na ignomínia.

O que mais me admirou na maior parte dos filósofos de quem me pude aproximar, foi a falta de julgamento. Sempre ao lado. Uma inaptidão notável para a justeza. — A dobra da abstracção vicia o espírito.

Tento combater o interesse que sinto por ela, imagino os seus olhos, as suas faces, o seu nariz, os seus lábios, em plena putrefacção. Nada feito: o indefinível que ela liberta persiste. É em momentos assim que comprendemos porque é que a vida conseguiu vingar, a despeito do Conhecimento.

Uma vez que compreendemos, o melhor seria rebentar nesse instante. O que é compreender? O que verdadeiramente conseguimos apanhar não se deixa exprimir de forma alguma, e não se pode transmitir a ninguém, nem sequer a nós próprios, de jeito que morremos ignorando a natureza exacta do seu próprio segredo.

O verdadeiro escritor escreve sobre os seres, as coisas e os acontecimentos, não escreve sobre a escrita, serve-se de palavras mas não se detém nas palavras, não faz delas o objecto das suas ruminações. Será tudo, excepto um anatomista do Verbo. A dissecação da linguagem é a mania daqueles que, não tendo nada para dizer, confinam-se no dizer.

Você é um reaça? — Se quiserem, mas no sentido em que Deus o é.

A minha paixão pela história deriva da minha queda pelo caduco e do meu apetite pelo perdido sem remédio.


E. M. Cioran, Esboços de vertigem


(Daqui)