terça-feira, 30 de abril de 2013

Durante pouco tempo (alguns minutos) pensei estar em outro lugar, não sei qual não sei nomes não me recordo se apenas sonhei, mas a realidade pulsava assustadoramente dentro daquelas ruas com suas casinhas coloridas e de tijolos marcados com massa negra. Tenho vontade de me morder inteira quando começo a divagar romanticamente dentro de um texto que não deveria ser mais que um texto e menos que um não-desabafo digno de risadas escandalosas. A verdade é que, a verdade é que eu estou cansando dessas pessoas e desse barulho que não me deixa descansar. Talvez dormir também não seja a palavra exata, precisa, segura. Dentro do meu sono os pesadelos vêm me visitar e me atormentam com facas, rostos desfigurados e mais barulho. Penso em paz e vejo a figura da minha casa e do meu quarto, com uma cama sempre cheia de papéis, uma mesinha com um computador ao lado, um guarda-roupa, um pequeno poste de madeira que agora não recordo do nome em que colocávamos nossas toalhas, um cesto, um chão de cerâmicas frias e tudo permeado com cheiro de aconchego e, o melhor de tudo, silêncio. Um silêncio tão inesquecível que eu poderia simular estar dentro de um útero que, certamente, eu teria a mesma sensação de um abraço gigante, que as mãos de Deus estavam balançando as beiradas (cadeiras) da minha vida. Saudades.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

J.L.B.

Nem o pormenor simbólico
de substituir um dois por um três
nem essa vã metáfora
que convoca um lapso que morre e outro que surge,
nem o cumprimento de um processo astronómico
atordoam ou minam
o planalto desta noite
e obrigam-nos a esperar
as doze irreparáveis badaladas.
A causa verdadeira
é a suspeita geral e confusa
do enigma do Tempo;
é o assombro em face do milagre
de que apesar de todos os acasos,
de que apesar de sermos
as gotas do rio de Heraclito,
perdure em nós alguma coisa:
imóvel,
alguma coisa que não encontrou o que procurava.

sábado, 27 de abril de 2013

ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

[de Carlos Drummond de Andrade, do livro Corpo, Edit. Record, 1984]

quinta-feira, 25 de abril de 2013

selva de árvores-móveis

O chão de madeira do quarto me deixa mais confortável, mais segura. Me faz lembrar de algo natural que teima em se esconder / sumir nas cidades grandes, nas cidades médias e daqui a pouco até nas pequeninas. Os roupeiros onde guardamos (sim, divido um quarto com mais quatro moças) nossos badulaques também são amadeirados e isso é bom. As nossas camas são de madeira escura, quase negras. As janelas e a porta são clarinhas porque pintadas de branco (os roupeiros também o são). Só hoje constatei que vivo numa floresta de árvores-móveis e sou um ser que habita suas entranhas. Eu deveria me sentir especial por isso, não? Mas sempre tive a sensação de ser estranha em alguns ambientes, como se eu nunca pudesse fazer parte daquilo realmente. E é exatamente assim que estou me sentindo agora vendo tanta lenha e tanta falsa vida.

segunda-feira, 22 de abril de 2013


Essa minha estranha associação entre figuras de cactos e abraços ''derrete costelas''. Deveria, segundo a lógica, remeter a algo ácido, né, já que deterrer exala moleza e corrosão, figura que o Sr. Cacto & família não representa. Mas a possibilidade de abraçar pessoas e sair ferida também é algo bonito e lógico de se pensar.

sábado, 20 de abril de 2013

Vai, livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz

Diz a ela que espalha
Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância e cor
Desafiando o tempo.

Diz a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora
Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo
Salvo a Beleza, a sós.

Ezra Pound (tradução de Augusto de Campos)

sexta-feira, 19 de abril de 2013

idiossincrasias cotidianas

Na tevê da saleta que fica próxima ao meu quarto só passa desenho (ontem dormi com a risada do Bob Esponja ao fundo).
Não gosto de me contar como saudosista ou nostálgica de tempos longínquos mas ao mesmo tempo sei que preciso do passado muito bem construído e absorvido dentro das minhas flutuantes emoções para que eu consiga, mesmo que dificilmente, me perscrutar vez em quando, me apreender e enfim, me reconhecer meio ao caos que é a minha estrada. Entendo quando leio algo sobre vida e momentos; comparações desse nível que às vezes me fazem bocejar mas que, como toda boa bobagem, tem fundos verídicos e quase incontestáveis (a depender do, voilá, momento). Porém não estou aqui a escrever para falar mal do que os outros dizem, pois os outros são muitos e os discursos e as ideias mudam o tempo todo. E quem é você para falar de nós ou de quem quer que seja (Os outros perguntam em tons variados e desconcertantes)? (Mesmo que isso não signifique nada, ou seja, tenho todo o direito de falar de quem eu bem entenda, desde que essa pessoa mereça ser lembrada, caso contrário, falemos do mundo e generalizemos a vontade pra que todos, assim que se situem, possam tomar e engolir suas dores em quietude - Essa seria a minha resposta ou A FUGA se eu realmente precisasse disso). Mas avançando: Não estou aqui para falar mal dos outros e sim para relembrar. Saudosista (nota: usar essa palavra dá calafrios na espinha e tumores no sistema límbico [embora eu não tenha claramente uma ideia formada de onde fica o sistema límbico, algo me diz que não seria legal ter tumores lá]) que sou, acordei melancólica por estar longe de pessoas que me são queridas e com rememorações quase que de minuto em minuto dos meus tempos de criança demasiadamente branca para os padrões da cidade, algo que, durante um certo tempo, serviu de desculpa para que me transtornassem (mas fora isso: saudades vida antiga). Costumava ser mais fácil e frugal viver nos meus tempos de escolinha. Costumava ser recompensador ouvir histórias dos meus pais já cansados de um dia cheio antes de dormir. Costumava ser prazeroso ter um irmão por perto para brigar e bater de vez em quando. Costumava ser difícil guardar coisas e perder e encontrá-las dentro de buracos no quintal. Costumava ser divertido ter cães, gatos, tartarugas e passarinhos convivendo no mesmo quintal. Enfim, costumava ser selvagem & banal ver casas com quintais (belíssima palavra, dizaê).

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Coxas, 1979.

"minha dor é um anjo ferido

de morte

você é um pequeno deus verde

& rigoroso

horários de morte cidades cemitérios

a morte é a ordem do dia

a noite vem raptar o que

sobra de um soluço".

abra os olhos & diga ah! (roberto piva, 1976)

Teu sorriso

olhinhos como margaridas negras

meu amor navegando na tarde

batidas de pêssego refletindo em teus olhinhos de

fuligem

cabelos ouriçados como um pequeno deus de um salão

rococó

força de um corpo frágil como âncoras

gostei de você eu também

amanhã então às 7

amanhã às 7

tudo começa agora num ritual lento & cercados de

gardênias de pano

Teu olhar maluco atravessa os relógios as fontes a tarde

de São Paulo como um desejo espetacular tão

dopado de coragem

marfim de teu sorriso nascosto fra orizzonti perduti

assim te quero: anjo ardente no abraço da Paisagem.

abra os olhos & diga ah! (roberto piva, 1976)

eu sou o jet-set do amor maldito

DENTRO DA NOITE & SUAS CÓLICAS ILUMINADAS

os papagaios da morte com Aristóteles na proa do trovão

DISPOSIÇÃO DE IR A DERIVA NOS DADOS DO AMOR

espinafre pela manhã & queijo em pasta

almas-esportivas com flores entre os dentes

minha laranja se abrindo como uma porta

TUA VOZ É ETERNA eu vejo a mão cinzenta rasgar

a parede do mundo

ESTAMOS DEFINITIVAMENTE NA VIDA

quarta-feira, 17 de abril de 2013

em 97

em 97 eu arriscava desenhar meu nome
e árvores que pareciam frascos loucos de terras distantes
moradias de joões gigantes
ruas estradas tortas enfeitavam minhas gengivas

e salivaaaaaaavam algodão docinho


não lembro se enxergava bem ou sequer se enxergava algo além do muro no nosso quintal
que era sempre florido e frutificado disso eu me lembro bem
tinha 4 anos dali ao passado era um pulo no ontem
e minha mãe parecia mais viva
com seus olhos negros e pequenos

(miúdos)


papai tinha calças rasgadas nos joelhos e sempre
sempre sempre rasgava mais quando saía
caçava & comia
soluçava & bebia
praguejava & esquecia
mas nossa vida era tão ria! Sentávamos com as pernas cruzadas
pernas em cima de pernas e cheirávamos nossos olhos
os olhos dos nossos filhos; brincávamos de ser queimado pelos fogos
luciferianos, mentira nem sabíamos brincar com fogos

em 97 eu aprendi a ter medo dos raios e só amar as luzes
e a contar o tempo depois de 3 em 3 em 3 se faz um bolo
depois em sono depois em dia depois eu aprendi
a amar os meus pais e a minha família
assim como amo até hoje

em 97 não tínhamos gatos ou cachorros
mas criávamos passarinhos com nomes hollywoodianos

em 97 eu tinha um espírito chamado dom
e eu achava o meu irmão mais bonito que eu
(e assim se faz até hoje)

Em 97 eu tinha uma avó chamada Marina
E gostava da cor do cabelo dela,

que sempre me parecia igual,

apesar dos olhos terem virado cinzas


E aqui estou novamente tentando destrinchar (ler) Mário Ferreira dos Santos às 5h18 de uma manhã gélida e (por Deus!) silenciosa. Exteriormente tudo parece bem mas o intrínseco repousa inadequado. Também ouço Smiths, o que revela a minha capacidade quase que sobrenatural de nunca impressionar alguém. O fato é que sou uma pessoa das mesmas coisas - eu deveria grifar esse termo para poder elucidá-lo melhor depois, mas a preguiça de sempre fazê-lo me impede -, o que já explica todos os outros termos e (por que não?) o texto que está sendo escrito agora. Sim, este.

Não gostaria de parecer confusa ou de cansar as vistas de ninguém com repetições e ciclos infinitos, porém, como já havia dito, sou mais do mesmo. Prefiro o confortável, o seguro e o conhecido a desbravar campos alagadiços e inexplorados.

A cada dia ando mais empenhada em docilizar a Psicologia e isso está se sobressaindo pelas minhas pesquisas, pelos meus acessos e pedidos na biblioteca. Talvez seja coisa de momento e, como já sabemos, eles passarão (eu passarinho).

Gosto de pensar em situações finitas e creio ser oposta a maior parte das pessoas que conheço e que focam no eterno, no felizes para sempre, nas escolhas sepulcrais e lúgubres dentro de um escopo romantizado. As profissões, os cursos (dos rios) e os amores servem pra nos unir, enfim, é um elo entre o nosso eu excluso / isento e o mundo.

E agora pensemos: Se as nossas escolhas têm a função de nos ligar ao mundo isso nada mais é do que uma batalha de egos e trocas. Sim, é tudo uma questão de Eu não quero / posso ficar sozinho; Eu preciso de você; Eu não sei viver sem você (que fase, hein). Espero não precisar me ferir tanto.

E às vezes gosto de pensar que sou como os espíritos momentâneos e que vivo a vagar entre colinas que melodizam nostalgias ou que vivo dentro de um comercial de 1997 ou (ainda) que vivo a passear entre a efêmera linha do limbo romântico e a minha graciosa companheira razão (isso parece tão legal dentro da minha cabeça e tão bobo aqui fora).

Mas pra não ficar só na divagação cíclica, deixarei aqui a última parte de um poema que adoro de Roberto Piva, poema este que se encontra no livro Paranoia.

visão 1961

(...)

porres acabando lentamente nas alamedas de mendigos perdidos esperando
a sangria diurna de olhos fundos e neblina enrolada na voz
exaurida na distância
cus de granito destruídos com estardalhaço nos subúrbios demoníacos pelo
cometa sem fé meditando beatamente nos púlpitos agonizantes
minhas tristezas quilometradas pela sensível persiana semi-aberta da
Pureza Estagnada e gargarejo de amêndoas emocionante nas palavras
cruzadas no olhar
as névoas enganadoras das maravilhas consumidas sobre o arco-íris
de Orfeu amortalhado despejavam um milhão de crianças atrás das
portas sofrendo
nos espelhos meninas desarticuladas pelos mitos recém-nascidos vagabundeavam
acompanhadas pelas pombas a serem fuziladas pelo veneno
da noite no coração seco do amor solar
meu pequeno Dostoievski no último corrimão do ciclone de almofadas
furadas derrama sua cabeça e sua barba como um enxoval noturno
estende até o Mar
no exílio onde padeço angústia os muros invadem minha memória
atirada no Abismo e meus olhos meus manuscritos meus amores
pulam no Caos

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Tudo bem, agora eu tenho um blog e o problema é que nunca sei como começar (apesar das infinitas vezes que já o fiz). Às vezes é fácil quando as coisas já vêm programadas (isso abranda ansiedades também) e quando penso e falo ''coisas'' os meus pensamentos voam e abarcam apenas as burocracias; os relatórios; as listas de compras; etc etc! Penso em dificuldades e temo inícios. As minhas primeiras vezes sempre foram complicadas e isso diz muito sobre a minha pessoa e como encaro o mundo. Não sei soar clara quando falo abstratamente e sobre mim, nem sei abranger conceitos egoicos sem abraçar tons desmedidos. Espero compensar minhas falhas preenchendo vazios iniciais com hipóteses menos corrosivas (dói, vou errar, não sei). A inexperiência gera medos mesmo, é comum não saber e mais comum é não ser cônscio disso quando se espera sobriedade de si próprio. Mas, voltando ao blog: Não sei o que será dele e, como já falei anteriormente, já tive vários e desisti de todos. E os motivos foram vários também. Vergonha, idiotice, menosprezo. Nunca sei como começar e nem como parar corretamente, mas sempre preservo a vontade de fazer certo das próximas vezes. Veremos no que dará.