terça-feira, 28 de maio de 2013








Leonardo Fróes

Um pastel cheio de dedos

Antes de chegar a Jardel, parei para comer um pastel
do qual, quando mordi, saíram pernas bonitas
de garotas fritas, mais um caroço de azeitona que comi também
sem pensar que loucura
um pastel erótico sentimental com cerveja que espremia
não só as pernas como também braços e cabelos no balcão do bar
eu não sabia se pedia um pano um balaio
comecei a ficar encabulado de tantas de uma só mordida
não sabia se botava no bolso ou se distribuía na rua
deus do céu que situação penosa
corpos em quantidade escorrendo do recheio de queijo
pela comissura dos lábios,
e eu, em terra estranha, tendo de parecer que era apenas
um idiota se babando com pastel fresco.

*

Mulheres de milho

Milhares de mulheres de milho
brotam do meu olho calado como espigas
fortes. No ar elas se endireitam

como folhudas criaturas carnosas
que ao vento se transmudam, de fêmeas,
em formosos penachos machos.

Acho graça na cruza; penso nisso
que é ser mulher a passo
de, sob a vertigem solar, virar confusa

hibridação. Abro-me. Brinco
de me dar. Rapto-me e opto-me
como se eu mesmo fosse me comer inteiro

enquanto as coisas simplesmente nascem.

*

Metafísica e biscoito

no meio dos latidos da noite
quando o silêncio atinge a qualidade
dos latidos da morte e as folhas caem
impressionavelmente sangradas;
no meio frio de um colchão inquieto
com os olhos pensativos resvalando no teto
e as mãos descendo pelo corpo
como a buscar sua realidade longínqua
quando os morcegos da melancolia
atravessam sem bater entre as árvores
e alguma coisa enraizada confusa
parece brotar de novo entre as pernas;
nesse espaço fundamental reduzido
onde as idéias se sucedem largadas
numa associação intempestiva
que é impossível deter ou compreender;
no cerco sem limite de um quarto
que roda em vários mundos e alterna
com a sensação de não haver nada disso
que dá contorno e forma à própria insônia —
— o homem dá um salto e se puxa
para fora do pântano
e devora um biscoito
e bebe um copo d'água e acende
um cigarro e mais outro.

(Daqui)

Pra me ouvir: Aqui

segunda-feira, 27 de maio de 2013

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Estátua. Corpos paralisados, blocos, divisórias, estático, coluna. Ereta. Vértebra. Sopro. Desfaz. Vão. Chafariz. Absinto. Marias. Joões. Pão. Bloco. Fechadura. Guardanapo. Bilhete. Singular. Fascínio. Estrago. Sorvete. Chefe. Vaca. Calça. Sono. Limpeza. Cabelo. Água. Vassoura. Bolsa. Madeira. Pano. Tempo.

terça-feira, 21 de maio de 2013

mundo-ovo: pessoas eclodem
mundo-mar: pessoas imensas e azuis*
mundo-viga
mundo-terremoto
mundo-lacuna
mundo-esqueleto
mundo-gelatina-de-pêssego*
mundo-fagulha
mundo-hipocrisia
mundo-copo-poço
mundo-mundo-vasto-mundo-se-eu-me-chamasse-antonieta
talvez eu não precisasse de rimas nem de soluções*

e

uma corda no pescoço seria meu referencial de morte quase perfeita (alô, ian)

às vezes invento de rasgar papéis que me fizeram chorar há algum tempo (certo tempo, distante, dois, três anos - uma revolução de segundos) e me arrependo por não ter mais por quem ou pelo quê derramar água salgada, gotas densas, flores

parece que o mar mora dentro dos nossos olhos
mar-de-decepções-espelhadas
com seus perigos e abismos e um pouquinho do céu que reflete além das dores*

a escuridão sonhada, absorvida.

os óculos arranhados e perdidos por uma revolução de segundos.

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1-  mundo-mar: pessoas imensas e azuis* (ref.: procurando nemo)
2-  mundo-gelatina-de-pêssego* (ref.:  pêssegada)
3-  talvez eu não precisasse de rimas nem de soluções* (ref.: grande drummond)
4-  com seus perigos e abismos e um pouquinho do céu que reflete além das dores* (ref.: pessoa  in mensagem)

domingo, 19 de maio de 2013

esta é, assim, uma rua perfeitamente normal sendo anómala, um território sem fim onde, numa casa, me pus a pensar por cima dela;
penso
quando a noite cai,
e eu saio com a noite,

o que me faz passear surpreendendo-me com o facto nu de que o tempo intermitentemente se apaga, e o espaço cresce em mobilidade visível;
no meu passeio,

o espaço vai apagando o tempo, sua sombra vizinha, torna-se redondo ou contemplativo de si próprio, enquanto o percorro sem movimento, numa espécie de não ser, de não fazer; o não andar se instala, só há a mancha da noite como antes houvera a mancha do mundo, a nebulosa onde vou dar de comer aos gatos; desce sobre nós um enunciado positivo e real ______ a rua anómala, por me ver passar, derrama-se sobre mim, trocamos de inconsciência,

o texto a conhece, eu a desconheço, ambos a queremos; trocamos nossas formas que se dissolvem agora numa substância que sonhámos em permanência,

substância da dor de amor, outro nome do drama-poesia

porque o amor tem lados e tem dor, sombras vizinhas que convergem e divergem, uma dor que não nos socorre, e se afasta de nós;
andando, por carta ou por livro, dirijo-me directamente ao amor, interrogando-o
se a dor não é o preço desta rua,
destes olhos criados por uma certa densidade de luz,
às seis da tarde, quando saio


Maria Gabriela Llansol, Onde Vais, Drama-Poesia? p. 302.

sábado, 18 de maio de 2013

"Chega-se a um ponto em que convém fugir menos da malignidade dos homens do que da sua bondade incandescente. Por bondade abstrata nos tornamos atrozes. E o pensamento de salvar o mundo é dos que acarretam as mais copiosas — e inúteis — carnificinas."

- Carlos Drummond de Andrade (in Divagações sobre as ilhas).

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''Vou ficar em casa uns quatro ou cinco dias, não para descansar, porque não faço nada, mas para não ver nem ouvir ninguém, a não ser meu criado José. Este mesmo, se cumprir, mandá-lo-ei à Tijuca, a ver se eu estou lá. Já acho mais quem me aborreça do que quem me agrade, e creio que esta proporção não é obra dos outros, e só minha exclusivamente. Velhice esfalfa.''

- Machado de Assis (in Memorial de Aires).

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Uma porcao de besouros voando sobre a sua cabeca, alguns entrando nos seus ouvidos (orelha é ultrapassado - ou seria o contrario? ha tempos nao estudo essas particularidades anatomicas) e morrendo lá dentro.


Procurando espaco nesse mundo já famoso e inquietante de tao comprido.


Vespas aparecem nos nossos sonhos e logo pensamos em copos cheios de leite, tarkovsky, uísque vagabundo (vinho também!, que a depender dos casos me lembra um simples suco de uva com gotas generosas de álcool e cabeca pesada nos dias seguintes. Cabeca pesada e bolso vazio´cheio de vespas) e pernas. Ando estranhamente ligada em pernas. Daquelas redondas e duras, que nao balancam no caminhar, sabe,

mas nao tenho sonhado com isso.

Dentes, o que dizer. Eles nascem pra depois cair e te deixar feio.

A boca e um acesso de loucura que as vezes (em parceria com os dentes) te faz

                                                --   parecer   --

um pouco ou muito feliz.

terça-feira, 14 de maio de 2013

ego

Quando tudo vira uma conexão entre o que eu gostaria de fazer e o que eu efetivamente faço, isso apenas vira referência para outra construção que vem me incomodando há tempos: a síndrome do eu - o ego boiando em egos (não me recordo muito bem da aula de Psicologia Forense em que a profª explicou as sutis diferenças entre o id, o ego e o superego, mas lembro-me de ter ficado encantada com as explicações e viajar na maionese durante quase o resto da aula inteira).

Sempre soube que o ego nada mais é do que o reflexo do que somos, lembramos, como agimos, enfim, o ego é o material líquido que comanda nossas emoções e pulsões exteriores e interiores, visto que é o alicerce que sustenta nossa personalidade, por fim, o eu. O Id já está mais para o lado hedônico, dos nossos prazeres [sexuais], estímulos e impulsos. E o superego é o mais fofo de todos. É o responsável pelas crises morais que enfrentamos, pelas nossas bases de construção, pelas nossas percepções de certo e errado etc!).

É uma doença chata que te persegue quando todos os outros assuntos (interessantes ou não) resolvem sumir. Logo, você se torna o assunto, mas isso não faz jus a textos, fica monotemático, inexpressivo, corriqueiro e chato de ser sempre descrito. As experiências externas precisam comparecer constantemente para que os seus olhos não se habituem mal.

Às vezes, mesmo que isso destrua todas as barreiras do clichê, observar uma árvore, um canto de um pássaro, um baloiçar de belos cabelos que passam levados por igualmente belas e longilíneas pernas de pêlos dourados é mais instigante e legível que falar do mal funcionamento das suas faculdades mentais ou da falta de equilíbrios em que seus hormônios se encontram.

Prezar pelo indescritível e tentar guardar o visto (mesmo que com algumas falhas por conta das tenebrosas e conhecidas lacunas mentais) em papéis e gastar um pouquinho os dedos na tentativa de que algo bonito dali ressoe é (e sem temer em soar repetitiva) mil vezes mais exultante que escrever com que aspecto sua pele está ou qual será a sua próxima cor de esmalte.


Estou aprendendo tudo isso aos poucos. A delicadeza e a beleza que se esconde em se deliciar com o simples e dar a merecida importância ao importante.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

ahhh, portugal!

''Os tomates e as batatas foram trazidos para a Europa, os abacaxis brasileiros foram introduzidos nos Açores, as malaguetas brasileiras cresceram em Angola, o café africano foi transplantado para o Brasil (que ainda hoje produz metade do consumo mundial), cajueiros brasileiros foram para a África e a Índia, e o chá foi apresentado aos europeus.

Hoje, o afecto português por certos ingredientes como a canela e o caril, por exemplo, é também um legado deste tempo. Mas outras culturas tinham introduzido novos sabores em Portugal séculos antes disto. Os Romanos (que aspiravam fazer da Península Ibérica o celeiro de Roma) introduziram o trigo e introduziram as cebolas, o alho, as azeitonas e as uvas. Depois, os mouros foram primeiros em plantar o arroz, figos, limões e laranjas, e cobriram a província do Algarve de amendoeiras.''

''...Típicas do Porto são as tripas com feijões. Não é ao gosto de toda a gente, mas foi o prato mais famoso do Porto desde que Henrique o Navegador enviou um navio para conquistar Ceuta, em Marrocos e a gente do Porto matou todo o seu gado para fornecer a tripulação, guardando somente os intestinos para eles. Por isso os Portuenses são conhecidos como "tripeiros" ou "comedores de tripas" desde então.''

''...Muitos dos doces de renome do país foram criados por freiras no século XVIII, que elas vendiam como um meio de complementar os seus rendimentos. Muitas das suas criações têm nomes interessantes como "barriga de freira", "papos de anjo" e "toucinho-do-céu". Um doce especialmente delicioso é o "pastel de nata”.

Daqui.

dos hippies?


Eu gosto de floresta, acampar, pescar, cavalgar e verbalizar minhas naturalices, que andam cada vez mais distantes. Os prédios escondem o verde já difícil e eu não posso / não consigo mais comer fruta do pé; o que era uma situação corriqueira até certo tempo. Há alguns meses o habitual era sentar embaixo de uma árvore frondosa cheia de laranjas maduras e vermelhas e ler algo ou ler o ambiente ou ler os meus intestinos, sei lá, acho que caçar animais não deveria ser proibido nem acho que deveríamos passar tanto tempo longe de nós mesmos como fazemos enquanto brincantes de prédios e pagantes de condomínios cheios de regras. Inclusive é nas matas, florestas e campos que encontramos a maior parte dos espíritos vagantes, dos seres desconhecidos, dos insetos, das orquídeas, das bromélias.

um brinde àquelas horas mortas

O assunto deveria ser sono ou a falta de, pode ser que também comporte os excessos. É prazeroso deitar quando se está cansada de tudo (até do corpo) e experimentar aquelas horas mortas, vagas. Porém é, no mínimo, desgastante deitar e deixar os olhos abertos, sempre abertos, como raízes no teto ou nos objetos interiores, aqueles que só fazem vida e instalam-se nos pensamentos, nas emoções que, assim como conseguem distrair prazerosamente por algum tempo - talvez até por um longo tempo -, também podem transtornar e muito, muito, muito. Das decepções causadas pelos sentimentos se ouve ecos de acúmulos que só se revelam à noite, que só transcendem quando você decide descansar do mundo, sair do mundo, dormir.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

[...]

Falo de fulgor porque a falta de claridade é essencial. A escuridão é propícia ao medo, ao pensamento e ao projectar. O descoberto e o escondido confundem-se, trocam de rosto. Entram em simetria. Quando o meu há é todo o há que existe.

''Viver com as imagens é a nossa arte de viver. Reparem, sem o seu fulgor não saímos da simetria. E nesta nada vemos. Vamos presumir uma saída. Veremos o que o nosso sexo sonha. E este sonha apenas a parte da simetria que lhe cabe. A outra parte pertence à imagem que vai tomando vida. Avançamos para ela e ela avança sobre nós. Esse movimento torna-nos obsessivos e inconstantes. Não podemos viver sem ele, mas a imagem não se mantém fixa. O fulgor desloca-se. Não podemos desejar o novo e querê-lo sem surpresa. Começa a irradiar do sexo e alteia-se. Do aqui evolui, difunde-se por todo o há que possamos admitir.

O desejo é escuro, diz Rimbaud.
Sujo, queres tu dizer, replica Aossê.
O desejo é divino, diz convictamente Hölderlin.

Dickinson pede silêncio. Que os homens tagarelas se calem porque, na extrema do jardim, emerge, ou parece emergir, uma nova imagem. Em seguida, o futuro corre para nós a grende velocidade. Há partes que se entendem, e partes aparentemente sem qualquer sentido. Uns lutam, outros acolhem. Com ou sem pacto, não creio que as imagens nos queiram bem (nem, aliás, mal) ou nos reconheçam. Não são aladinos. Mas caminhos (que eu sempre vivi como jubilosos e que, para outros, são angustiantes e tormentosos) que nos fazem ter corpo, este tempo, este poema na voz. O grão, entre todos reconhecível, da nossa escrita. Os poemas que oferecemos uns aos outros. O desejo de perfeição e de completude que lemos no que escreveram. [...]

A imagem surge no fundo do jardim.
É quase só negro, no início da perca de simetria.''


Maria Gabriela Llansol, Onde Vais, Drama-Poesia?, p. 33.

quarta-feira, 1 de maio de 2013


a expressão que

diz tanto com tão pouco 

e as circunstâncias que

nunca se calam